Como dizia um personagem de certo filme francês, o amor foi uma invenção de um trovador numa corte, acesso imaginativo entretanto transformado em justificação da vida por gente entediada. Os séculos amadureceram a ideia, a moda pegou, e o amor culminou nesta lavagem cerebral injectada à força nas nossas cabecinhas vulneráveis de crianças pela “Bela Adormecida”, pela “Música no Coração”, pelos “Beatles”, por milhares de desenhos animados, comédias românticas lamechas de Domingo, romances e canções. Formataram-nos nessa ilusão de bem-estar fusional profundo, de salvação no outro, de príncipes azuis, escravizando-nos a essa demanda impossível e ocultando-nos tudo sobre o quotidiano, sobre autoclismos não puxados, bloqueios emocionais, divisão de tarefas e despertares rabugentos, que continuam e continuarão a existir, para além do casamento, dos filhos, e de todo e qualquer progresso civilizacional.
Mas o amor de Romeu e Julieta, o “meant to be”, essa ideia de colisão de duas almas prevista numa espécie de Livro do Tempo no início do Universo, esse amor – como lhe chamar (?), amor castrejo? – não tem a universalidade que ostenta. Aqui, por exemplo, não é assim.
Para começar, faz demasiado calor para andarmos de membros e corpos embaraçados e aos beijos e a dormir enrolados, e é um pesadelo ficar-se abraçado depois de fazer amor, a trocar carícias e afectos submersos em poças de suor, emaranhados na rede mosquiteira desfeita, a deixar passar os mosquitos que se vêem afogar na pele encharcada.
Também não há cinemas. O jantar à luz das velas é uma obrigação, não um prazer, e o pôr-do-sol é um filme já visto, um casaco coçado. Aliás, não se percebe esta lírica fixação ocidental com o pôr-do-sol. No meio da natureza, na terra do horizonte descoberto, sem betão a perfurá-lo, o pôr-do-sol é aquela banalidade que está lá sempre.
E depois é só problemas: ele é fula, ela é balanta, ele é manjaco, ela é nálu, ele é cristão, ela é muçulmana, amo-te a ti mas o meu pai prometeu-me à filha de um amigo seu há vinte anos atrás depois de um negócio entre ambos. Até queremos ficar juntos mas eu quero emigrar. Até me casava contigo, mas nesta aldeia o matrimónio implica no mínimo 50.000 CFAs à tua família. Onde é que raio vou eu desencantar 50.000 CFAs? É melhor pensar noutra coisa.
Vocês europeus é que têm essa coisa do amor. – diz-me o Mali – Aqui em África o amor é outra coisa e é muito fácil: se tens dinheiro, tens amor. Tens uma mulher, duas mulheres, três mulheres. As que quiseres. Se estás doente, se estás triste, se não tens dinheiro, se perdes emprego, aí já a mulher te deixa por outro. É assim. Não há essa coisa de cuidar do outro… Como é que vocês dizem? - e o Mali ri-se - Na alegria e na tristeza e na dificuldade e na doença… – e o Mali não termina o raciocínio, porque se continua a rir – Essas coisas… Sabes do que é que estou a falar não sabes?
No alpendre da sua casa, onde vive com uma dessas famílias nucleares que fazem inveja às nossas famílias extensas, e cujo almoço de dia de semana mete num canto as nossas ceias de Natal, Moustapaha fala-me e confunde-me com a vida e os nomes de alguns dos seus vinte e um irmãos. São filhos de três madrastas que deram ao mundo e ao seu pai, quatro, quatro e seis filhos, mais os quatro de sua mãe e dois de uma mulher anterior. Mas Moustapha tem uma postura crítica, escarnece desta manada de gente, e demarca-se:
- Mas eu quero casar-me com uma branca porque sou diferente. Não quero saber o que o meu pai diz. Para além disso a mulher negra gosta de ti enquanto lhes carregas o telemóvel. Mesmo a minha namorada, numa altura em que eu não tinha dinheiro, começou a dizer que eu já não gostava dela, e deixou-me. Mas não era verdade. Eu gostava dela. – e depois o Moustapha diz-me assim de repente o mundo em quatro ou cinco frases – Eu quero casar por amor. É por isso que me quero casar com uma branca, só uma, e ter dois ou três filhos. Mais não. Eu sei como é lá no teu país. Já vi nos filmes na televisão.
É tão verdadeira a ideia que o amor castrejo vem dos filmes que aqui ainda há quem tenha ouvido falar dele, justamente, através dos filmes.
A tradição bíblica ensina-nos que a felicidade do primeiro homem antes da queda consistia na ausência de trabalho, isto é, na ociosidade. O gosto da ociosidade manteve-se no homem réprobo [detestado, malvado], mas a maldição divina continua a pesar sobre ele, não só por ser obrigado a ganhar pão de cada dia com o suor do seu rosto, mas também porque a sua natureza moral o impede de encontrar satisfação na inactividade. Uma voz secreta diz ao homem que ele é culpado de se abandonar à preguiça. E, no entanto, se o homem pudesse achar um estado em que se sentisse útil e em que tivesse o sentimento de que cumpria um dever, embora inactivo, nesse estado viria a encontrar uma das condições da felicidade primitiva
Tolstoy, Guerra e Paz, Edições Europa-América [péssima tradução]
Tolstoy desconhecia o Sul. Tivesse apenas ultrapassado o Marvão, entrevisto as planuras que sitiam Portalegre, e ter-se-ia admirado. Teria aí encontrado os primeiros exemplares desses velhos secos, magros e encarquilhados como pulgas, minguados ao extremo da caricatura, embrulhados na sua pele pedregosa, curtida pelo sol, fissurada por rugas verticais produzidas talvez por essa incidência constante e diagonal do sol, pele que já não é pele bronzeada mas sim pele cozinhada, acastanhada para sempre, camada após camada, até aos ossos; Tolstoy teria visto de perto esses homens transformados em estátuas, que estão e sempre estiveram recostados na mesma cadeira do mesmo alpendre da casa, nas mesmas praças das mesmas aldeias, nos mesmos degraus das mesmas portas, condenados a ai permanecerem até ao fim dos tempos, de quando em vez deslocando uma peça de dominó.
Em Marrocos e na Mauritânia essa imobilidade agrava-se. Atravessam-se montanhas e sucedem-se os encontros com estes quadros do Hopper vivos, estampados nas aldeias de colmo, pincelados nas bermas das estradas, desenhados em paisagens marcianas, no meio de nenhures, à beira de estradas nacionais por onde não passa vivalma. Muitos desses homens, neste Sul, já nem sentados se aguentam. Aparente medida estatal, os países foram cobertos de esteiras. E a gente usa-as. Discute o Corão, discute casamentos, bebe chá, dorme, e outras vezes está tudo calado.
Centenas de quilómetros mais abaixo, os feriados que calham ao fim de semana passam para Segunda-feira porque as pessoas estão fatigadas das suas profissões difíceis: o paquiderme que vende rebuçados numa banquinha de esquina, dias, anos a fio, está cansado; o vendedor de amendoins está cansado, o contabilista do restaurante que não faz outra coisa senão anotar, de hora a hora, a garrafa de Fanta vendida, utilizando repetidamente a máquina de calcular para subtrair o preço vendido ao preço comprado e confirmar a certeza dessa cifra imutável repete “C´est dur, l´Afrique c´est dur”; um monstro de músculos de rabo grudado a um banquinho de criança a jogar damas abre os braços, abraça a rua, e diz “Aqui não há emprego” e eu não acredito que nos últimos anos tenha procurado para além dela; as lojas, as barbearias, os pequenos comércios não têm ninguém lá dentro: entra-se, inala-se o silêncio, ouvem-se as moscas, e depois espreita-se ou chama-se. Estão a dormir num compartimento interior, ou do outro lado da rua com os amigos, no país dos sonhos, e alguém os tem que ir chamar, para que nos cheguem a bocejar e nos atendam.
Talvez seja por isso que, quanto mais perto do equador, mais nos disparam variações convictas das seguintes sugestões:
- Mas porque não ficam aqui? Sentem-se, hoje dormem cá, vão aprender a nossa língua… – depois dizem uma das frases que mais ouvi em todo o Senegal (mas também na Gâmbia e em Bissau) – Et on va discuter! Beaucoup discuter. On va bien discuter.
Mas… Afinal… Conversar ? Conversar o quê? E porquê? A que propósito? Proposta estranha, que pressupõe já a certeza tácita da fluência de um diálogo interminável, apontado à morte, destinado a acontecer independentemente dos interesses, da religião, das opiniões ou tão somente das pessoas intervenientes. Vai-se apenas falar, e muito, o resto não interessa. Ou então nem falar… Vai-se apenas praticar a amizade, ou seja, ver o tempo passar da mesma esteira. Até à morte.
E, realmente, porque não ficamos já aqui e deixamos de arranjar chatices, fretes, problemas, aborrecimentos, canseiras, e, realmente porquê a viagem (como quem diz, porquê o movimento)? A vida não passa de uma sesta ao sol do meio-dia imperturbada pelo cenário grandioso que a enquadra. Se a imortalidade é uma estátua numa praça do mundo, basta que essa sesta seja suficientemente tranquila para nos transformarmos em pedra.
Nunca estive em Moscovo, em S. Petersburgo, na Sibéria, mas gostava de conversar com Tolstoy sobre esses lugares, e de lhe tentar explicar o estranho fenómeno que se dá a partir do Alentejo.
Parece que essas vozes secretas que culpam os homens da preguiça começam a perder forças precisamente lá para os lados de Portalegre.
Capa da edição portuguesa de Elogio da intolerância, de Slavoj Zizek.
Em O Elogio da Intolerância (Relógio de Água, 2006), no Prefácio à Edição Francesa, Slavoj Zizek – um aclamado pensador contemporâneo – utiliza “os três tipos básicos de casa de banho” como metáfora de modelos ideológicos de como cada indivíduo de deve comportar em relação à sua própria merda, e, em certa medida, como “expressões de três atitudes existenciais diferentes”.
Nas casas de banho alemãs tradicionais, o buraco onde o cocó desaparece depois de se puxar o autoclismo é lateral, de tal maneira que o cocó começa por ser exibido aos nossos olhos para melhor poder ser farejado e inspeccionado em vista da eventual detecção de alguns indícios de má saúde; no modelo francês, pelo contrário, o buraco fica bem no meio e em baixo, o que significa que a merda deve desaparecer o mais rapidamente possível; finalmente, a casa de banho americana (anglo-saxónica) apresenta uma espécie de síntese entre as duas outras, uma mediação entre esses dois pólos opostos – a sanita está cheia de água, de tal maneira que o cocó flutua à superfície bem visível, sem que por isso deva ser examinado…
Nestas sanitas, para Zizek, podemos distinguir “a minúcia reflectida alemã, a irreflexão revolucionária francesa e o pragmatismo utilitarista moderado inglês”; mas também, e respectivamente, “o fascínio contemplativo ambíguo (…); a tentativa rápida de se desembaraçar do desagradável excesso da maneira mais rápida; a abordagem pragmática que consiste em encarar o excesso como um objecto comum a suprimir da maneira apropriada”.
Com esta ilustração, o autor pretende referir-se à persistência da ideologia num mundo ultimamente dito pós-ideológico, utilizando-a como introdução às dificuldades de construção da Europa e de uma identidade europeia. Em suma, está a comunicar-nos que estamos atolados em ideologia literalmente até à merda, e que esta é uma das dificuldades humanas essenciais na convivência com ooutro.
Ler esta reflexão em solo africano não deixa de ser extraordinário, especialmente quando, volvidas cinco nações deste continente, as três sanitas ideológicas ocidentais se mantêm insistentemente confrontadas com a falta de espessura da personalidade do simples buraco africano.
Se, por um lado, esse triste buraco testemunha um atraso na preocupação sanitária, a sub-sofisticação da indústria higienista, ou, tão simplesmente, a pobreza, quando experimentado país após país, casa após casa (mais rica, mais pobre, de intelectuais, de políticos, de pescadores, com parabólica e plasma, sem parabólica e plasma), testemunha também o abismo que separa as diferentes profundidades de contaminação reflexiva da sociedade, denunciando um ocidente ocioso e sobre-mental que há muito que, como um copo de água parado e estafado, cheio de partículas reflexivas em suspensão, vai deixando que elas se sedimentem lentamente, até percorrerem toda a fundura do copo, se misturarem umas com as outras, e atolarem de uma mixórdia de palavras os alicerces da vida.
A própria metafísica da merda, aflorada por Zizek, (ou por mim, neste momento – e aqui é preciso situar-me: muito dificilmente estaria a escrever isto se fosse africano), é o corolário de um movimento de reflexão (e, à reflexão, no sentido ocidental do termo, chamemos – simplisticamente – o acto de dar e atribuir palavras à realidade. A reflexão – especialmente no sentido ocidental – é sempre um onanismo vocabular, uma paixão desmedida por ler, escrever, produzir discursos sobre, enfim, produzir dialéctica) verdadeiramente descontrolado (para além da óbvia curiosidade psicológica do humano pelo obsceno, que será porventura tão comum num africano como num ocidental, mas sobre a qual não me sei pronunciar): o ocidente é actualmente uma espiral de dúvidas, suspeitas e porquês (que começou com os “mestres da suspeita” - Nietzche, Marx, e Freud - embora tenha as suas raízes no pensamento grego, e persiste no sociólogo, no colunista, no artista, em Zizek, numa juventude ociosa e profundamente tagarela e opinativa – o chamado Slacker – retratada no filme homónimo que a denominou, de Richard Linklater), espiral essa cujo poder de corrosão foi varrendo consigo religiões, tradições, fundamentalismos, morais, tabus, todo e qualquer obstáculo ao pensamento, mas também (para o bem e para o mal) todas as referências sobre aquilo em que se deve pensar, ou aquilo em que vale a pena pensar, abrindo isto as portas à dialéctica do lado obscuro – ao esgoto, à merda. Mas aqui talvez me esteja a referir apenas (e muito superficialmente) às condições culturais de possibilidade de sobre-verbalização das camadas subterrâneas da vida, e não ao que causa essa direccionalização do pensamento. Ou seja, mesmo considerando um campo de reflexão absolutamente livre, é ainda necessário compreender porque o que é que faz a reflexão dirigir-se para determinada coordenada desse campo.
Para isso, regressemos a África. Aqui, claro, também existe escatologia. O corpo sujo é problematizado e verbalizado (e também com um mínimo de minúcia) e a regra não será de todo – daquilo que conheço – uma África paranoicamente pudíca; mas o seu tratamento [do corpo] – verbal e de acção – revela uma naturalidade pragmática que não passa disso mesmo. Os dejectos são qualquer coisa que se remove com um balde, que se faz em determinado compartimento, e que se limpa de determinada forma. E não há muito mais a dizer sobre eles.
O que torna então possível que os europeus, que nunca vêem a merda, que nunca a cheiram, que excluíram a merda da sua vida, acabem a esmiuçá-la em discussões, a teorizarem e conceptualizarem sanitas, e que os africanos, quando todas as manhãs chegam à casa de banho e se têm que confrontar com os dejectos do outro, não vejam qual é o interesse em falar sobre isso? A explicação parece-me simples, e à vista de todos: o contacto (ou a falta de contacto) com a própria merda.
A diferença entre o prazer intelectual que a Europa possa ter em discutir a merda (tema recorrente no cinema, na filosofia, na literatura) e esta atitude africana, parece-me a medida exacta do abismo que separa a vida africana – uma vida real – da vida neuronal da Europa contemporânea. “Bem-vindos ao deserto do real” (é assim que Zizek nos introduz o ocidente num outro livro), um lugar onde o cérebro tomou conta do corpo, bem-vindos à teia urbana de apartamentos, esse paraíso intelectual onde habitam aqueles que substituíram a vivência da vida pela da cultura na acepção FNAC do termo: a conversa substituída pelos livros, o cão pelo tamagotchi, o som do tempo presente, da rua, pela música num cd ou num mp3, o movimento corporal pela viagem através do ecrã, uma Europa irremediavelmente condenada a ruminar-se a si própria e a tentar recuperar-se violentamente – e é este aquele que me parece um dos movimentos fundamentais do pensamento ocidental contemporâneo – por meio de temáticas em relação às quais um africano não teria qualquer problema em falar, mas nas quais dificilmente encontraria prazer em se embrenhar, ou interesse. É na espeleologia mental do esgoto humano que está a diferença, e os exploradores dessas grutas, dessas cavernas, são precisamente aqueles que delas não têm um conhecimento suficientemente directo.
Um jovem em África, o mais estudado, informado, com o menor contacto com a miséria e com a maior fome de saber possível, quer ser engenheiro de automóveis, advogado ou médico. Não poeta, criador de instalações, (instalador?), psicanalista, sociólogo ou filósofo; quer, quanto muito, ser artista figurativo mas jamais abstracto; repórter fotográfico mas nunca fotógrafo experimental. Ao contrário de nós, dificilmente encontrará poesia num subúrbio africano pós-apocalíptico, meio devastado, cheio de lixo, num muro de uma casa feito de portas de carros. Apenas encontrará miséria.
Enquanto a Europa resvalou para uma curiosidade mórbida (quem diz sobre fezes, diz pornografia, morte, psicanálise, violência, diz os subterrâneos e masmorras da mente, diz essa recém-adquirida capacidade de milhões de ocidentais de fomentar patologias psicossomáticas mentais criando-as apenas de tanto falar delas) que emergiu de um progressivo assepticismo de superfície (que está tanto na volatilização da merda no objecto sanita, como na volatilização do seu cheiro – leia-se, no WC Pato –, como quando nos entregamos à actividade de efectivação da separação entre a realidade real e aquilo que oferecemos aos nossos olhos e mãos para verem e sentirem, tal como quando nos dedicamos a essa definição FNAC de cultura) que se foi naturalmente tornando artificial e entediante (e possibilitador de múltiplos fenómenos, tal como o sucesso de um filme como o Matrix – cuja tagline é o título dessoutro livro de Zizek –, mas também a sua própria incubação: o facto é que é absolutamente irreal pensar a criação do universo do filme, por exemplo, à sombra de um cajueiro em plena Gâmbia.), os africanos nunca saíram de um «terraterrismo» que agora nos olha de longe e com espanto: em que buraco é que estes europeus se foram meter? De que estão eles a falar? Terão eles perdido toda a noção da vida?
Sobretudo, a realidade ocidental tornou-se distante através da palavra (uma vez mais, é necessário acrescentar que a palavra não é uma categoria universal, mas que é utilizada de formas culturalmente específicas. É exactamente por essa razão – pela capacidade que a palavra tem de criar um duplo, um distanciamento da realidade, de, ao verbalizar a realidade, se constituir como um necessário segundo mundo, este feito palavras, decalcado sobre ela – que a filosofia oriental repudia a palavra, que elogia o mestre que ensina sem falar, que privilegia a observação da natureza, e que práticas silenciosas como a meditação e o Yoga ai emergiram), que continua a utilizar como âncora única de salvação de problemas que nada têm a ver com ela.
A África que eu tenho visto, tão impulsiva como esperava, tão espontânea como se imagina, tão abrutalhada e barulhenta quanto pode ser a experiência humana, obriga-me a perguntar, a esta distância, sobre a utilidade que de um grupo de auto-ajuda, do momento em que um paciente explica o seu problema ao seu psiquiatra, sobre a utilidade de um casal a conversar com o seu terapeuta conjugal, de um sociólogo a diagnosticar numa sociedade os seus atritos.
Podem as palavras curar os problemas que elas mesmo criam? Fala-se demais.
Yes (x14)
If you can't decide what to do with your life
You just don't know what it is that's right
If you just don't know what to do
You just don't know what's right for you
If you can't decide where to go with your life
You just don't know where to spend your time
If you can't decide where to go with your life
I'm sure you'll do whatever is right
I've always known you were incredibility bright
Get in your go-kart and go little sister
Get it your go-kart and go
Get in your go-kart and go little sister
Get it your go-kart and go
Get in your go-kart and go little sister
Get it your go-kart and go
Get in your go-kart and go little sister
Get it your go-kart and go
And then swing your swift sword sister
Swing your swift sword now
Swing your swift sword sister sister
Swing your swift sword now
Swing your swift sword sister
Swing your swift sword now
Swing your swift sword sister sister sister
Morphine
A vida transformada na palavra «sim». Querem vir dormir a minha casa? Sim. Querem vir visitar a minha tia que acabou de dar à luz? Sim. Querem vir ao Magal de Touba? Sim. Querem guiar este Peugeut 404 entre Banjoul e Nouakchott? Sim. Queres dormir comigo? Queres mesmo dormir comigo? Sim. Querem vir pescar connosco? Sim. Queres casar comigo? Levas-me para a Europa? Queres construir uma casa para ti? Dou-te esse terreno que aí está…
Demanda por um certo tropicalismo do ser, Arqueologia da Terra do Nunca, soterrada num aterro pelas camadas geológicas da moral e da educação. Aprender a dizer sim. Não é isso que todos estes europeus vieram aqui fazer?
Mergulha-se num campo de batalha de obuses-perguntas, mas nós sem mais munições de «sins» para responder a tanto poder de artilharia, bebendo água para olear as espingardas-vocais.
Neste palco de guerra, está tudo em rota de colisão, todos a precipitarem-se para cima uns dos outros, baionetas de emoções empunhadas, e nós olhamos para o relógio – porque não sabemos fazer mais nada – e explicamos que temos que bater em retirada. Estamos com pressa, disparamos nãos-gentis, balas-cravos como no 25 de Abril, porque nos esperam noutras batalhas fingidas.
- Gostava muito, a sério, dar-me-ia o maior prazer, mas já tenho um encontro marcado.
Cumprimos agendas – fazemos amor aos sábados de manhã, que nos outros dias estamos cansados e nas manhãs seguintes temos que acordar às 7:30 – em lugar de sei lá o quê.
E, no entanto – como diz Nietzsche em “Além do bem e do mal” – os «sins» orgásmicos, despidos de todas as constrições sociais são essencialmente nossos: a anarquia, a arte abstracta, a dança sem música, a música atonal ou dissonante, as espirais dialécticas que nos corroem o espírito.