domingo, 17 de maio de 2009

E o teu pai?

Na praia que fica ao lado do nosso parque de campismo, em Sukuta, a 20km de Banjul, capital da Gâmbia, o exército gambiano executa, semanalmente, uma operação original e caricata: varre a praia de uma ponta à outra capturando os jovens gambianos que por lá andam a importunar os turistas (a tentar impingir coisas ou, somente, a conversar), pontapeando-os directamente para a cadeia por um período (normalmente) fixo de sete dias.

Embora esta manobra me tivesse proporcionado um dia de praia sossegado, e a tranquilizante contemplação de um areal vazio, o relato encarniçado de um local, explicando-me a razão de uma praia tão despovoada num dia de sol tão formidável, indignou-me. Imprevisivelmente a minha indignação daria lugar à aceitação da burlesca prática militar. Os dias em Sukuta sucederam-se, as idas à praia também, tive o prazer de privar com os jovens gambianos e de me espojar no areal reocupado e fui-me tornando progressivamente reconhecido à utilidade deste corpo do exército.

A Gâmbia, antiga colónia britânica, é um território absurdo onde vive uma gente incrivelmente chata.

- Hey man, how´re you doing? – grita, de dentro da viatura, um rapaz dos seus vinte e poucos anos, que enverga uma t-shirt do Liverpool, e usa um cabelo de esfregona, uma tigela invertida de tiras Vileda curtas e finas, envoltas num lenço – Não te via há imenso tempo.

Eu estou na Gâmbia apenas há três dias. Esforço-me, ainda assim, por lhe tirar bem as medidas e tentar perceber se o conheço de algum lado. Mas julgo que não.

- Estou bem, e tu?

- Que fazes?

- Vou comprar pão.

- Entra aí, eu levo-te lá. – e abre-me a porta do lugar do morto.

- Não, deixa estar. Eu vou a pé.

- Com este calor? – exclama – You´re crazy. Step into the car man, no problem.

- Okay. – concordo, porque o argumento da temperatura é válido, e entro na viatura. O tipo arranca.

- Então, e o teu pai? – pergunta-me, de chofre.

- O meu pai?! – replico, admirado.

- Sim, o teu pai.

- O que é que tem o meu pai?

O gambiano olha para mim, faz uma careta, aparentemente atrapalhado, e muda de assunto, com redobrada convicção:

- Então e a tua namorada meu?

Não consigo conter uma gargalhada e confirmo a suspeita de que este tipo está mesmo a inventar.

- Não tenho namorada.

- Então vou-te arranjar uma amanhã. Gambian girls, they´re nice man!

Ando a ouvir esta conversa várias vezes ao dia e apresso-me a mudar de assunto antes que se adense, e tenha que explicar a uma pobre rapariga que ele vá entretanto buscar ao outro lado da cidade que não é nada de pessoal, mas que não quero nada com ela (não seria a primeira vez):

- Olha, diz-me uma coisa. As lojas já abriram [é Domingo depois de almoço, e na Gâmbia as lojas estão normalmente fechadas até meio da tarde]?

- Ainda não. – e ouço este álibi para sair do carro, oferecido de bandeja, com satisfação.

Falo-lhe num tom simpático:

- Sendo assim deixa-me sair aqui, já que ainda não andámos quase nada. Vou fazer tempo para o campismo, para depois ir comprar o pão

O gambiano parece ficar aflito, pára o carro bruscamente, mas deixa o motor a trabalhar, e vira-se para mim:

- Ah, mas eu conheço um sítio aberto e vamos lá.

Compreendo que não devia ter entrado no carro, e lembro-me do André, táctica recorrente de drible social.

- Não posso. – respondo – Tenho que ir buscar um amigo meu ao parque de campismo. Está lá à minha espera para almoçar.

- Então vamos lá buscá-lo.

A partir daqui começo a inventar:

- Só que ele ainda está o no duche.

- Não há problema. Nós esperamos por ele.

Decido que tenho que dar uma machadada na conversa enquanto é tempo:

- Pá, mas eu quero ter o dia relaxado. Depois combinamos algo.

Mas o golpe desferido é insignificante. Pode-se insultar um gambiano mas isso não o vai impedir de continuar a querer ser nosso amigo.

- Depois quando? À noite?

Invento, sem me esforçar por soar convincente:

- À noite vou ver um jogo de futebol.

- Quem é que joga?

- O Chelsea.

- Mas o Chelsea não jogou ontem?

- Pá, meu, na realidade não sei quem joga. É o meu amigo que sabe.

- Talvez tenha sido o Manchester City.

- Pá, a sério, honestamente não sei.

- Então e depois do jogo? – insiste o tipo, que me está a espetar agulhas na paciência a cada sílaba que vomita da boca.

- Depois há uma festa reggae. – ocorre-me dizer, ainda com menos convicção.

- Então eu passo aqui para te vir buscar.

- Mas eu já combinei com outras pessoas às 22h.

Olha para mim com um ar desapontado.

- Man, man, man, man… – murmura baixinho, de si para si, fitando o tablier, com os olhos vazios, e abanando a cabeça. Depois, com uma expressão suplicante, absolutamente deslocada do seu ar de rapper mauzão norte-americano, e uma energia redobrada, pergunta de novo:

- Então quando é que nos vamos ver?

- Pá, não sei…

- Dás-me o teu número de telemóvel?

- Não tenho o telemóvel.

- Então dá-me o do teu amigo.

- Mas ele vai-se embora amanhã de manhã.

- Então fica com o meu número.

- Okay. – acedo, porque ele não me dá hipótese.

- Tens caneta?

- Não.

O gambiano procura atabalhoadamente uma caneta no carro. Verifica o porta-luvas, debaixo dos bancos, nas portas, no tablier, mas não a encontra.

- Don´t you like gambian girls?

- Sim, gosto.

- Meu, amanhã vou-te arranjar uma nice gambian girl.

- Okay, okay. Isso seria fixe…

- Então olha, o meu número é 76…

- Mas queres que o decore? – pergunto, estupefacto. Não quero acreditar.

- 76. – volve ele, em resposta à minha pergunta.

- 76 – repito, absolutamente enfadado.

- 35.

- 35.

- 38.

- 38.

- Agora diz o número completo.

- 76 35, euh…

-38 meu! 38! Tens que prestar atenção. Podes repetir?

- 76 35 38. – digo, e não quero acreditar no nível de exasperação a que este tipo me está a fazer chegar.

- Okay. Eu sou o Dave. – apresenta-se – Assim que chegares ao parque de campismo vais apontar o meu número num papel, okay?

- Não te preocupes. Eu sou o Francisco. Nice to meet you.

Giro o corpo, enfio a mão no puxador da porta, e inclino o corpo todo, executando o gesto corporal para sair do carro.

- Mas… Mas vais-me ligar não vais? – diz-me ele, puxando-me pelo ombro, de novo recorrendo à voz melosa e implorante.

- Vou. Não te preocupes.

- Okay. Olha que vou ficar à tua espera.

Volto a tentar sair do carro, mas ele insiste.

- E quando é que me vais ligar?

- Pá, amanhã.

Nesse momento, descontrola-se:

- Eu quero muito ser teu amigo meu. – diz, aparentemente incapaz de se conter, como se estivesse desde que entrei no carro para o confessar, e eu ouço esta hipérbole gambiana de manifestação de amizade (típica, antológica, verdadeira instituição nacional, expressa incontáveis vezes ao dia) e quase consigo prever a afirmação que se sucede – Tu és um gajo muito fixe.

Mas como é que estes homens crescidos dizem estas coisas? Uma vez sem exemplo, decido extrair algum gozo deste teatro. Pouso-lhe a mão no ombro, olho-o nos olhos, e confesso-lhe, com o tom mais lamechas que consigo:

- Também quero ser teu amigo. – e viro-me, aproveitando o abalo emocional infligido, e ponho-me fora do carro tão depressa quanto consigo. Já com os pés em terra firme, ele continua:

- Wait! Diz-me só o meu número outra vez.

- 76 35 38 – disparo, o mais resolutamente possível.

- Nice. Man – e o Dave sorri-se todo, feliz por constatar que o memorizei. Talvez acredite que lhe vou mesmo ligar – You´re a very nice guy. – e deixa-me, por fim, seguir caminho. – See you tomorrow man!

Calcorreio nem dois minutos de passeio, e há um outro tipo do outro lado da rua, com a camisola do Manchester United, que me cumprimenta.

- Hey man!

- Hi! – respondo, já a revirar os olhos.

- How are you doing?

- I´m fine, thanks. And you?

- Tenho-te visto passar… – diz-me.

- Ah sim? – digo-lhe, e só me apetece mandá-lo dar uma volta.

- Então, onde é que vais? – pergunta-me, bem-disposto, com essa mesma doçura melosa do Dave, do Ali Baba, do Moustapha, e de todos os outros gambianos, e, por momentos, tenho a sensação de que esta gente não tem mesmo nenhuma segunda intenção quando fala connosco. Talvez seja verdade que só queiram conversar, passar momentos agradáveis juntos, e trocar palavras simpáticas como fazem os verdadeiros amigos.

Durante mais trinta minutos fico a falar, a trocar números de telefone, a esquivar-me a rendez-vous.

Mais de uma hora depois de ter deixado o parque de campismo consigo finalmente regressar, sem pão, sem nada, apenas com a cabeça a latejar do volume industrial de discurso vazio produzido, nada que pudesse surpreender o André se eu lho comunicasse, que, sentado numa cadeira a ler um livro, põe os óculos e me diz, espontaneamente:

- Tenho estado a pensar e acho que devemos começar a apanhar táxis do parque de campismo para os sítios para evitarmos estes gambianos. E o resto do tempo não saímos daqui. – ri-se – De outra forma não se pode.

- Pá, não imaginas como estou de acordo contigo. – digo-lhe, com toda a convicção que consigo emprestar à voz.

Depois sento-me ao lado dele a ler um livro, e agradeço aos deuses esta medida anti-socialização alemã que, quando chegara, me tinha parecido uma inaceitável reminiscência do Terceiro Reich: uma taxa de entrada no parque para gambianos de 2.50€ criada pelo casal de alemães que o gere, precisamente para os manter longe da vista.

Sossegado a ler o meu livro neste paraíso gambian-free, com um gozo sádico, imagino as montanhas de gambianos que entretanto, como todos os dias, se estão a acumular do lado de fora do parque, à minha espera e do André, apenas porque, distraidamente, numa conversa absurda no meio da rua, caímos no erro de lhes revelar o lugar da nossa estadia, porque, perante massacres de insistência lhes replicámos também quero ser teu amigo, porque, perante teimosias invencíveis, aquiescemos sim sim, vemo-nos amanhã. Imagino-os a arranharem o portão do parque com as unhas, a arrancarem cabelos, a apanharem insolações, a projectar planos desesperados para virem ter connosco – cordas, túneis, cabos, picaretas – e, já sem esperança, delirantes, a lançarem os corpos contra os muros, tudo, apenas, em nome da amizade.

- Esta gente não tem nada para fazer. – diz o André, enquanto vira uma página, parecendo ter ouvido os gritos de agonia dos gambianos lá fora.

- São uns chatos de primeira. – digo eu.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Ver e «vi-ver» II - Momar

I

Depois de um almoço para o qual tínhamos sido convidados, é tempo de regressar aos arredores da aldeia piscatória de Palmarin, onde temos tenda montada. De barriga ainda pesada do djebudjen (arroz com peixe e legumes, prato típico senegalês) e a cabeça a chocalhar da miríade de vozes da sessão de visita a milhentos familiares que previsivelmente se sucedera ao almoço, olhamos com um enfado escondido e uma alegria ligeiramente forçada para o simpático grupo de homens que rodeia a nossa tenda, e que nos recebe com sorrisos e acenos, já saudosos e impacientes, assim que avista a nossa viatura. Aguarda-nos essa algazarra comedida, que quer apenas tagarelar, beber e comer. Paro o carro junto à tenda, respiro fundo e apelo aos meus melhores sentimentos. Mesmo volvido tanto dia, ainda estou a imaginar que bem que ficaria o meu corpo e a minha barriga cheia anatomicamente almofadados no piso de areia esponjosa. Mas eles não e, afinal de contas, vivemos em sociedade, não é? É justo que aqui estejam. Afinal nós é que nos viemos enfiar na sua aldeia. Saímos do carro, sob o já habitual dilúvio de cumprimentos, e o Momar é o primeiro a avançar para nós.

Momar é um corpo frágil, a maturar há uns quarenta anos, onde se equilibra a custo um crânio erodido e sulcado, de ossos salientes que lhe retesam a pele nos vértices, e de dentro do qual vibra uma voz quente e cadenciada. Vive aqui, em Palmarin, e vende artesanato na praia aos turistas de um resort de luxo que fica a não mais de um quilómetro de distância. Dá-nos as mãos, conduz-nos até à fogueira apagada, atrás da tenda, e aponta-nos um alguidar a abarrotar de solhas.

- Banquete para os meus amigos! – exclama – Hoje vou preparar um prato especial. Vamos fazer uma bela jantarada.

São quatro da tarde e nem queremos acreditar que o dia já se desfez de todos os seus problemas práticos. Desfazemo-nos em sorrisos, agradecemos a gentileza, e mostramo-nos felizes com a surpresa.

- Não tinha nada para fazer. – acrescenta o Momar, abrindo os braços, em gesto, todavia, de lamentação – e passei o dia a ajudar a puxar as cordas dos pescadores, em troca do peixe. Faltam apenas alguns ingredientes para acabar a preparação do jantar.

Recebemos e encaixamos bem o pedido subentendido de co-financiamento do jantar e garantimos a compra dos componentes em falta. É justo, afinal fomos presenteados com uma enorme quantidade de peixe fresco, fruto do trabalho de braços do Momar, e das vicissitudes da vida em Palmarin, aldeia que tem, de facto, apenas duas fontes de entrada de divisas: o peixe e o artesanato para os turistas. Esta última depende quase em absoluto do resort que, neste momento, está às moscas, o que força os vendedores a ir ajudar a puxar as redes das pirogas para terra a troco de quatro ou cinco peixes por barco.

Aparentemente acordados os termos do jantar, preparamo-nos enfim para não fazer nada, e sentamo-nos na companhia de toda a gente. Todavia, o Momar mostra-se irrequieto, e acabamos por perceber que, por qualquer razão obscura, pretende ir de imediato à aldeia comprar o que falta para cozinhar. Embora só me apeteça deitar-me e deixar para o meu estômago todo o trabalho produtivo desta tarde, faço-lhe a vontade.

Minutos mais tarde, já no caminho de regresso à tenda, com o óleo vegetal, pimento, cebola, farinha, Jumbo (caldo de carne ubíquo, condimento omnipresente em todos os pratos do Senegal), concentrado de tomate e batatas dentro de um saco, o Momar começa, como quem não quer a coisa, a traçar-me as linhas gerais da sua situação financeira, que se pode resumir ao facto de não vender nada há duas semanas. Acredito nele, e sei que esse retrato significa que o Momar não tem, de momento (e provavelmente há já duas semanas), qualquer tostão no bolso, ou em lado algum do mundo.

Exprimo-lhe a minha inútil compreensão, tento animá-lo dizendo-lhe que com certeza estão para chegar mais turistas, mas ele continua a queixar-se, e, nesta toada, damos por nós de novo na tenda. Sento-me com os outros mas, novamente insuflado de uma atitude de urgência, e mesmo perante a letargia alheia, o Momar dá início aos preparativos para confeccionar o jantar. Limpa tachos, corta cebolas, acende a fogueira, e, durante algum tempo, ninguém tem coragem de lhe dizer para parar nem de levantar o rabo para o ajudar. Finalmente, exibem-se panças dilatadas e expõe-se o óbvio: são cinco da tarde e ninguém tem fome. O André acrescenta, amavelmente, que, se tem muita fome, pode todavia continuar.

O Momar retorque, com uma amabilidade que lhe custa, não ser questão de apetite, e que era sua intenção comer em casa com a família, razão pela qual pretendia preparar já o jantar. Este prato, explica-nos, é a grande especialidade das suas mãos, e é apenas um presente. Dito isto, embora já tenha a fogueira acesa e tudo encaminhado, cessa todo o movimento e deixa-se ficar sentado, desconsolado e tristonho, sem saber bem o que fazer, a olhar para as labaredas. Passado uns minutos, chama-me de lado e confessa-se:

- Há duas semanas que só faço peixe e nada de moeda. Hoje tenho que voltar para a minha mulher e não tenho nada para dar de comer à minha filha amanhã de manhã. – o resto não precisa dizer, embora o diga com rodeios. Fico a olhar para ele e para a confecção interrompida e a juntar as peças de um puzzle muito simples.

- Quanto é que precisa Momar?

- Ah, não sei… não consigo... – balbucia, encabulado, olhando para o chão e brincando com a sandália na areia – Eu não lhe peço nada.

- 1000CFAs, chega? – pergunto-lhe.

- Sim. – aquiesce o Momar, muito sério, muito atrapalhado, esfregando os ossos da cara.

Dou-lhe a nota para a mão e pergunto-me, com violência: que outra coisa podia eu fazer? Então este homem saiu de casa de manhã, esteve a puxar cordas para conseguir peixe que não lhe servia para nada, e, mesmo sem saber onde estávamos hoje, se voltaríamos para dormir, reuniu lenha para a fogueira, trouxe tachos, e assentou praça meio dia na nossa tenda à espera que chegássemos para nos cozinhar um jantar que não sabia se queríamos comer, a uma hora completamente absurda, tudo isto para ter uma razão para nos pedir qualquer coisa em troca. Que podia eu fazer? Cabe-me a mim limitar-me a comer as solhas, e dar-lhe o pequeno-almoço da filha (fictício ou não) em troca. O Momar mereceu bem as 1000CFAs (1.80€).

II

Eu e o André desembocáramos no pequeno paraíso perdido que é a aldeia costeira de Palmarin com o intuito específico de descansar dos homens, de um Senegal que, até aqui, tinha sido, simplesmente, excessivo. Mas essa utopia do éden tropical balnear (esse lugar-postal onde, mais que tudo, ninguém nos chateia) existe apenas dentro dos muros do Club Med. Limitámo-nos, de facto, a acampar nas redondezas de Palmarin, furtivos, silenciosos, sem dizer palavra a ninguém, e todavia, sem aviso prévio, a aldeia caiu-nos cima, e continuou a cair, dia após dia, num movimento sem tréguas.

Palmarin tentou perceber o que queríamos, o que nos podia dar, o que lhe podíamos dar em troca, e procurou balançar o equilíbrio de intercâmbios connosco (e este foi um entre tantos exemplos possíveis). Sem controlo possível, os dias foram passando, e fomo-nos tornando parte orgânica da aldeia. Se um de nós tossia, alguém aparecia com uma mezinha tradicional, se começávamos a acender uma fogueira, havia quem começasse a apanhar cocos, se nos confessávamos solitários, alguém nos oferecia uma mulher. E esta não é a postura de uma aldeia experimentada e sabichona em relação a turistas brancos (raramente aparecerá aqui alguém na nossa situação. Os brancos que aqui passam são parelhas de Victorias e Beckmams do resort de luxo, cujo contacto mais íntimo com o Senegal consiste na recolha de conchas) objectivamente apontada à extracção financeira. Não creio que tenha existido entre nós mais do que um natural mecanismo de procura relacionamento (do qual, obviamente, a questão económica faz parte). «Sinergias», como agora está na moda chamar a tudo: as pessoas estão em constante rota de colisão umas com as outras, colam-se, ficam de pele grudada umas às outras.

E, todavia, o turismo é que criou essa diferenciação artificial, essa ideia de que se pode passar pelos lugares sem interagir com eles, sem nos envolvermos directamente na questão do pagamento do pequeno-almoço da filha do vendedor que conhecemos na praia, sem sermos, de certa forma, responsáveis por essa refeição. Mas, e uma vez mais, essa diferenciação entre homem e turista (que consiste na ideia de que há quem viva, e quem apenas veja), é puramente ilusória. O turista está envolvido até às orelhas na vida da aldeia. Apenas o ignora. A insignificante nota de 2000CFAs pela qual o ricaço francês compra um colar à filha por brincadeira e que vai ficar esquecido no fundo de uma mochila de praia ou do porta-luvas do carro alugado, é a nota que vai ser usada para sustentar uma família inteira durante dois ou três dias. O turista é que não se apercebe disso. Nós, acampados ali na praia, pudemos ver esse dinheiro – tão escasso – a mexer-se, a ser esticado, retalhado, e um comerciante a fazer pirraça aos outros quatro ou cinco por causa de um colar vendido, e o Louis a alcoolizar-se com vinho de palma para se esquecer que não vendeu nada.

No dia seguinte, a mulher do Momar, com um bebé atado às costas, ciranda à volta da nossa tenda, tentando compreender o que pode fazer por nós, ensaiando tirar-nos das mãos todo e qualquer trabalho manual que experimentamos principiar. A situação, claro, é insustentável, mas não tem nada de invasivo. É justo que ela aqui esteja, afinal nós é que viemos enfiar-nos na sua aldeia. Se há um invasor aqui, somos nós. Já o facto de sermos turistas e de, eventualmente, termos imaginado de qualquer outra idílica forma a nossa presença, é problema nosso. O turismo, por turismo que seja – por ver a vida que seja – é ainda vida efectiva.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Ver e «vi-ver»

I

Chegámos a Palmarin, aldeia piscatória na costa senegalesa, com intenções de eremitério e aspirações de isolamento. Os primeiros quinze dias no Senegal, entre um carro que pegou fogo, a iniciação a uma seita islâmica, mas sobretudo a convivência humana sufocante, pediam repouso, e uma trégua na socialização, e escolhêramos a aldeia de Palmarin porque a língua de areia sem acessibilidades onde se situa e os discursos sobre a rarefacção humana daquelas praias (escutados Senegal fora), concordavam acerca do potencial terapêutico do lugar.

Todavia, uma aldeia, para ser aldeia e figurar no mapa, tem que ter gente. Sabendo-o de antemão, e conhecendo os senegaleses, fizemos questão de assegurar um perímetro tampão à nossa volta, elegendo um lugar não excessivamente longe da aldeia (para garantirmos acesso às boutiques de alimentos), mas suficientemente distante para, julgávamos nós, evitarmos ser importunados. Ao chegar enveredámos por um caminho de terra batida que contorna Palmarin e acabámos por montar arraial na periferia da aldeia, a uns quinze metros da beira-mar, no meio de um palmeiral contíguo a um acampamento de bungalows abandonado, aparentemente entregue aos fantasmas, mas também – viemos depois a descobrir – ocupado por um pequeno e heterogéneo grupo de vendedores de várias idades e proveniências que utilizam os bungalows, uns como casas, outros como pontos de venda de artesanato aos turistas provenientes de um resort que fica a um quilómetro de distância, e que são apanhados desprevenidos a apanhar conchinhas na praia por avalanches de bugigangas very tipical.

Volvidos quatro dias em Palmarin, a nossa missão de retiro revelara-se um redondo falhanço, o pretenso magnetismo humano levara melhor sobre as nossas pulsões de solidão, e África ensinara-nos mais uma lição.

Ao quarto dia, acordo prematuramente sob o efeito de estufa da tenda, abro-a, e preparo-me para concluir a recta final do meu sono debaixo de uma palmeira. Agarro no saco cama, na almofada insuflável, meto o primeiro pé fora da tenda, e fico por momentos a cobiçar as sombras frescas que bailam suavemente na areia. Ouço então o meu nome, gritado nas minhas costas, muito perto de mim. Olho, e deparo-me com o Papis, um jovem vendedor de artesanato, e mais dois amigos, sentados em cima de dois bidões, uns quatro metros atrás da nossa tenda.

- Bom dia. – murmuro, tímida e ensonadamente.

Como réplica, sou pulverizado com uma nuvem densa de cumprimentos:

- Bom jour! Nengadef ? Bien dormi? La nuit? Bien passé? En forme? Tranquille?

- Oui. Oui. Et vous? Ça va ? – (que tristonhos são o solitário “ça va?” e o insosso “bom dia, como estás?”, quando comparados com o chorrilho de cumprimentos e perguntas de saudação do senegalês médio)

- «Ouei!» Trés bien. Estávamos mesmo aqui à vossa espera. Nunca mais acordavam. – e o Papis abana a cabeça, em sinal de desaprovação – Vocês dormem muito! – e ri-se – E o André?

- O André ainda está a dormir.

- Mas anda, vem aqui sentar-te. Porque é que estás de pé? Temos que falar com vocês. Tenho aqui estes amigos que hoje nos vão levar a almoçar a Sambadja. Eles querem que vocês venham comer a casa deles e conhecer a sua família.

Fito as expressões dos dois pretos que ladeiam o Papis, sorridentes, olhando mais para o chão do que para mim, como se tivessem vergonha do seu convite, ou medo que eu não o aceitasse.

- Claro, claro que vamos almoçar com vocês. Não há problema. – apresso-me a dizer, em parte porque me apetece ir, em parte porque me faz pena não aceitar o convite, em parte porque quero despachar a questão para continuar a dormir.

Os dois pretos espremem as caras doces e ovais, como duas amêndoas verticais, em dois sorrisos de uma sinceridade embaraçante para as minhas emoções em segunda-mão.

- Então mas que estás à espera? Senta-te aqui connosco. Vamos falar sobre isto. – insiste o Papis.

Indeciso, olho ora para as sombras fofas de areia ao meu lado, ora para as expressões amáveis e bem-dispostas do Papis e dos seus amigos. São oito da manhã. Está no teu direito dormir, tento convencer-me, mas estico a hesitação demasiado tempo. Entretanto o André acorda, sucede-se nova agitação de cumprimentos, chegam mais o primo e o sobrinho de não sei quem, o ar empapa-se de barulho e acabo por compreender que o dia, irreversivelmente, começou.

Em Palmarin tem sido sempre assim. De manhã, quando acordamos, há já sempre quem esteja junto à tenda sentado num banco à espera que acordemos, a enrolar um cigarro, a fazer fogo, a bebericar vinho de palma, ou apenas a olhar o mar. Depois, durante o dia, o número de pessoas tende a aumentar: trazem a festa e o R´n´B dentro dos telemóveis, trazem peixe, trazem tachos grandes, trazem bancos, trazem enormes almofarizes de madeira e respectivos pilões do tamanho de homens, e vêem comer o peixe que se grelha ao almoço; os miúdos vêm jogar ao berlinde, os miúdos maiores vêem jogar à bola, os pescadores vêm falar da pesca, os mourides da sua seita, os desempregados da falta de trabalho, e há ainda dois sujeitos engraçados que vêm sempre olhar para as imagens das revistas de golfe que outro dos habitués rouba do resort.

(…)

Às quatro da tarde, estamos de volta do almoço, depois de uma viagem de carro de uma hora à torreira do sol, e de volta ao palmeiral onde temos a tenda.

De barriga ainda pesada do djebudjen (arroz com peixe e legumes, prato típico senegalês) e a cabeça a chocalhar da miríade de vozes da sessão de visitas a milhentos familiares que previsivelmente se sucedera ao almoço, olhamos com um enfado escondido e uma alegria um pouco forçada para o simpático grupo de homens que rodeia a nossa tenda, e que nos recebe com sorrisos e acenos, já saudosos e impacientes, assim que avista a nossa viatura. Paro o carro, respiro fundo e apelo aos meus melhores sentimentos. Claro que, mesmo volvido tanto dia, ainda estou a imaginar que bem que ficaria o meu corpo anatomicamente almofadado no piso de areia esponjosa. Mas eles não e, afinal de contas, vivemos em sociedade, não é? É justo que aqui estejam, afinal nós é que nos viemos meter na sua aldeia. Saímos do carro, sob o habitual dilúvio de cumprimentos, e um destes guardas voluntários da nossa tenda, o Momar, aponta-nos um alguidar cheio de solhas.

- São para vocês. – diz-nos – Hoje vou preparar um prato especial. Vamos fazer uma jantarada.

- São quatro da tarde, acabámos de almoçar, e já está o jantar tratado. Isto é que é vida! – diz o Papis, com um sorriso, e toda a gente se senta, contente, a cacarejar. Só eu é que fico a olhar para o alguidar, a tentar agradecer ao Momar, mas incapaz de extrair mais da minha expressão que um sorriso indeciso, e um esgar de sofrimento, de asfixia.

Tento recordar-me se tinha alguma coisa importante para fazer neste dia, e que afazer importante é esse que me está sempre a puxar para trás, a impedir-me de me deixar ir com o dia, uma vez que, faça eu o que fizer, aqui não tenho qualquer controlo sobre ele. Mas não me lembro. Seria apenas o dormir?

II

Não se pode desaguar num lugar e ter a presunção de poder não interagir com ele como se se visitasse um jardim zoológico ou um museu, e no entanto é muito difícil não cair no erro de julgar que a viagem não é mais do que exercitar a posição do contemplador: espreitar por cima de um caderno, escrevinhar sensações escondidos atrás dele, bisbilhotar através do zoom de uma máquina fotográfica, susceptibilizar a nossa massa encefálica (prepará-la, vulnerabilizá-la intencionalmente, da mesma forma que a preparamos para ir a uma galeria de arte) para se deixar estampar pelas impressões que chegam de fora, da janela de um carro, de um café, de um comboio.

Mas se essa ideia é absurda em termos gerais, em África é pura e simplesmente impraticável. Aqui, alteradas as regras da privacidade e do espaço físico (seja culturalmente, seja pela necessidade – questão antropológica vasta), ninguém parece conhecer limites temporais de confraternização, barreiras espaciais de privacidade, e ninguém parece reconhecer itinerários individuais de comportamento demasiado… individuais (vem-me invariavelmente à mente, certo dia, em Kaloack, em que tive que expulsar alguém que quis vir comigo à casa de banho, preocupado que eu não conseguisse usar a sanita africana, e que me teria ficado a ver defecar se não o tivesse impedido).

Se o contemplador, para exercer a sua arte (de contemplar), necessita da existência de uma relação indirecta entre ele mesmo e o contemplado em que, sobretudo, o segundo não o interpele, em que jamais lhe exija que abandone o seu mutismo de observador para interagir, então os senegaleses são o pesadelo do contemplador, e certamente, como comentou certa vez o André, a terapia de choque – talvez o antídoto supremo – para o tímido. Nos antípodas do Safari envidraçado, do turismo-vitrine, a África senegalesa é uma espécie de modelo humano de pintura ao mesmo tempo fascinante e inquieto – sedutor, belo, mas ao mesmo tempo insuportável, impossível de registar – e, certamente, é o garante de uma imersão turística no típico, no tradicional, no nativo, no local, com todo o risco de nos soterrarmos na nossa própria vontade de imersão. Há ver e há vi-ver.

Um mês antes, um casal de jovens belgas que tinha tirado seis meses para viajar por África numa carrinha, cruzava-se connosco na Mauritânia. Nós estávamos a descer, eles a bater em retirada. Tinham feito apenas três meses mas tinham decidido pôr cobro à viagem e gastar os restantes três no Sul da Europa. Porquê?, perguntáramos. Não tínhamos descanso. Estamos exaustos, fora a resposta que, na altura, não compreendi muito bem.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Pausa

O caminho foi estreitando, estreitando, e acabou por ficar tão fininho que a partir daqui já só há mato, poucas almas, e nenhum hub de acesso à internet escondido na folhagem.

“Pelo caminho estreito” volta assim que a estrada se alargar...